segunda-feira, 15 de setembro de 2008

O Artigo

Não sou o tipo de pessoa que "engole" qualquer informação que me apresentam. Preciso analisá-la, processá-la e digerí-la por inteiro, minuciosamente.

Por isso, vou comentar com vocês o que li em um excelente artigo científico da American Journal of Veterinary Research.

Antes disso, quero lembrar-lhes e dizer-lhes algumas coisas:

1) No post "Ração? Eca!", comentei que 100% das rações super premium analisadas, disponíveis no mercado brasileiro, estavam contaminadas por micotoxinas, em concentração superior às permitidas;

2) Micotoxinas são produtos tóxicos, produzidos por fungos, com vários princípios farmacológicos (tricoteceno, fumonisina, ácido fusárico, etc. - geralmente ocorrem em conjunto), que podem atuar sobre o organismo animal desenvolvendo alterações patológicas graves;
3) Fungos alimentam-se de cereais ou grãos (trigo, arroz, milho, sorgo, centeio e derivados);
4) Artigo científico é uma publicação idônea, que antes de ser publicada, passa pelo crivo de renomados pesquisadores e estão presentes em revistas especializadas, de circulação internacional. Aqueles papéis brilhantes, repletos de gráficos, que a indústria farmacêutica e alimentícia oferece sobre seus próprios produtos não são artigos científicos. São uma afrontra à natureza com fins puramente comerciais, de confiabilidade questionável.

Então, vamos ao artigo!

Referências:
American Journal of Veterinary Research
October 2007, Vol. 68, No. 10, Pages 1122-1129
doi: 10.2460/ajvr.68.10.1122

Effects of foodborne Fusarium mycotoxins with and without a polymeric glucomannan mycotoxin adsorbent on food intake and nutrient digestibility, body weight, and physical and clinicopathologic variables of mature dogs
Maxwell C. K. Leung, MSc; Trevor K. Smith, PhD; Niel A. Karrow, PhD; Herman J. Boermans, PhD, DVM

Os pesquisadores utilisaram 12 cadelas adultas da raça beagle neste experimento e as dividiram em 03 (três) grupos.
Grupo 1: grupo controle, receberia alimentação a base de cereais não contaminados por micotoxinas;
Grupo 2: receberia alimentação a base de cereias contaminados por micotoxinas específicas;
Grupo 3: receberia a mesma alimentação do grupo 2 + uma substância chamada "polymeric glucomannan mycotoxin adsorbent" (GMA), os pesquisadores esperavam que essa minimizasse os efeitos deletérios das micotoxinas.

As cadelas receberam a alimentação por 2 semanas e foram avaliados interesse pelo alimento, comportamento em geral, peso, pressão arterial, ritmo cardíaco, níveis séricos de proteínas. Foi observada a atividade sérica de enzimas, como fosfatases e amilases. Além de contagem de células.

As cadelas dos grupos 2 e 3 sofreram INÚMERAS e GRAVÍSSIMAS alterações! (não vou entrar no mérito da experimentação animal aqui...)

Os autores relatam o seguinte como conclusão deste trabalho: Os resultados indicaram que o consumo de grãos naturalmente contaminados com micotoxinas pode afetar o comportamento e o metabolismo de cães. Tal como um aditivo alimentar, GMA não foi eficaz na prevenção de micotoxicoses em cães.

É isso que está nas rações super premium disponíveis no mercado brasileiro, segundo a análise que citei no post Ração? Eca!
Duvidam? Podem comprovar aqui também.
Onde estão nossos recalls?

Durmam com um barulho deste, se conseguirem.