terça-feira, 11 de maio de 2010

Julgando exposições, por Ricardo Torres Simões

Este é o melhor texto que já li, até hoje, sobre o julgamento de cães em exposições cinófilas.
Parabéns ao juiz cinófilo Ricardo Torres Simões.

Fonte: Orkut, comunidade Preservo a Raça.


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Julgar é uma arte e ao mesmo tempo uma ciência. É uma arte porque as decisões com as quais um juiz constantemente é confrontado, são freqüentemente baseadas em considerações de natureza intangível e que não podem ser reconhecidas e avaliadas sem algum senso artístico. Também é uma ciência, porque sem um excelente e profundo conhecimento do padrão e da anatomia de um cão, um juiz não pode fazer uma avaliação correta, seja com o animal parado ou em movimento.

Nas minhas andanças por pistas de exposições nos últimos quarenta anos, e mais recentemente como juiz regular do American Kennel Club onde a cinofilia profissional envolve muito dinheiro, aprendi que julgar cães é uma posição de muita responsabilidade. Requer um grau considerável de conhecimento sobre cães, ao mesmo tempo em que exige resolução, seriedade, dedicação, integridade, tolerância e respeito aos expositores que pagaram por sua opinião, além de bom preparo físico, para as grandes exposições. Considerando todos os fatores que mencionei com mais um, que eu acredito ser o essencial: "olho para cães", teríamos agrupado as principais qualidades que um bom juiz deve possuir.

Quem quer esta posição, e por quê? Qualquer pessoa pretendendo julgar cães deveria analisar a si próprio, avaliar-se com isenção de ânimos, e decidir se faria um bom trabalho nessa atividade antes de ingressar nela. É uma atividade que exige muito e retorna pouco aos que a exercem. Em alguns países somos remunerados generosamente para julgar, mas essa não é a realidade aqui no Brasil, onde os juízes atuam sem receber honorários. Eu conheço muitos criadores com condições e conhecimentos suficientes para serem bons juízes, mas que absolutamente não desejam assumir tal responsabilidade, resistindo bravamente ao que alguns mais desavisados consideram como o ”glamour” de comandar um ringue de exposições.

Os que desejam seriamente vir a ser juízes de exposições caninas, devem estar preparados para gastar muito tempo, anos talvez, estudando as raças nas quais estão interessados, ao mesmo tempo em que estudam anatomia e dinâmica de cães, além de obviamente, os regulamentos da CBKC. São necessárias constantes visitas a canis e discussões com criadores respeitáveis e bem informados, sobre o que buscam na criação e os vários aspectos de cada raça de seu interesse.

Assistir a exposições importantes em países onde determinadas raças estão mais avançadas, foi fator importantíssimo na minha educação como juiz. Conversas freqüentes com outros juízes mais experientes ou mentores, na busca de esclarecimentos técnicos de julgamento, práticas, truques e impressões pessoais sobre as raças, complementam e atualizam conceitos. Muito útil também é a participação em seminários tanto de raças como sobre técnica de julgamento, que aumentam os conhecimentos do juiz iniciante.
Além de tudo o que mencionei acima, o candidato a juiz deve avaliar sua personalidade para ter certeza que se sentirá confortável no meio do “seu” ringue, capaz de conduzir a exposição com firmeza, e principalmente: indiferente às influências externas. Para alguns, esta pressão é muito grande. Outros, equivocadamente se sentem como sendo o centro de atenções em lugar dos cães. Alguns, claramente demonstram de forma embaraçosa que não sabem o que fazer na posição de juiz.

Países diferentes têm sistemas diferentes pelas quais os juízes são aprovados para julgar uma raça, e isso poderemos discutir em outra ocasião. De qualquer forma, um bom juiz levará muitos anos para adquirir o conhecimento necessário. Eu entrei na cinofilia em 1965, sendo que apenas cinco anos depois, em 1970 recebi o título de juiz all-rounder. Anos depois, para receber meu título do AKC, tive que estudar tudo novamente como um principiante!

No Brasil, paradoxalmente, boa parte da formação do juiz ocorre depois de sua aprovação. Mas ainda assim, a implacável seleção natural elimina, na maioria das vezes, as figuras inadequadas e inconvenientes. Se o novo juiz exibir seu conhecimento, integridade e tiver boas atuações a seu favor, os convites serão continuamente feitos e sua carreira se desenvolve. Outros, recebem o título e julgam apenas uma vez, causando um desastre tão grande que jamais voltarão a desfrutar da experiência novamente, para o bem da cinofilia, claro...

Pessoalmente, eu gosto muito de julgar, embora tenha pouco tempo livre para isso. A oportunidade de colocar as mãos em animais bem construídos é uma grande satisfação. Estudar livros técnicos e discutir com criadores de alta categoria pode ser muito gratificante. Obviamente, nem todo cão proporciona grande prazer, mas acho que o juiz sempre deve procurar os pontos positivos de todo cão que julgue. Às vezes isso pode ser muito difícil, especialmente se você tem uma classe muito pobre, que é sempre é mais difícil de julgar do uma classe de bons exemplares.
A função do juiz é achar o cão que, na opinião dele, mais se ajusta ao padrão da raça, e classifica-los na ordem desse mérito. É no julgamento, quando cada juiz coloca sua interpretação pessoal do padrão da raça e preferências na qualificação de atributos e defeitos, que uma exposição de cães torna-se uma experiência fascinante.

Todo o contexto é subjetivo. Coisas como Tipo, Qualidade, Expressão e Equilíbrio, não podem ser descritas adequadamente em termos exatos e têm que ser reconhecidas intuitivamente. Cães diferentes ganham sob juízes diferentes, e se esse não fosse o caso, então por que a maioria dos expositores continuaria inscrevendo seus cães em exposições? Eles o fazem com a esperança de que este outro juiz, nesta outra exposição porá seu cão numa melhor posição. Juízes diferem na interpretação de padrões e nos valores que aplicam aos detalhes de cada raça. Isto não está errado porque os juizes são, antes de tudo, seres humanos, e os expositores devem ser tolerantes quando alguns dão ênfase particular a alguns pontos em determinadas raças. Se todo juiz, julgasse exatamente igual, não haveria nenhuma necessidade de exposições de cães. Como expositor, você pode e deve saber as preferências de um determinado juiz, e se você sente que seu cão não é o tipo que ele busca, tem a opção de não participar. Isso é parte da “lição de casa” do expositor.

Todos os juízes têm seu próprio estilo de julgar. Contanto que o juiz seja justo e ofereça a todos a mesma oportunidade para exibir seus animais, receberá apenas limitadas críticas. O juiz tem que se lembrar que os expositores freqüentemente gastam grandes somas em viagens e inscrições e deve ser cortês e gentil. Juízes estão no meio do ringue para encontrar os melhores cães, nada mais, nada menos. Porém, um juiz sempre tem que se lembrar que enquanto ele estiver julgando os cães, a assistência o estará julgando...
Julgar cães é um processo de raciocínio aplicado e demonstrado. Qualquer método eficiente aplicado ao processo de julgamento, ajudará a organizar o trabalho do juiz que poderá gastar mais tempo na verdadeira avaliação dos cães. Também ajudará a julgar de uma maneira justa e consistente. Ao chegar a exposição analiso a pista em que vou trabalhar, planejo onde quero estar, onde quero os cães posicionados e o que desejo fazer na pista, informando meu auxiliar de tudo.

Eu começo a julgar os cães no minuto em que os animais entram no ringue, e procuro avaliar o grupo de forma rápida e eficaz, aplicando toda a minha experiência na avaliação física de cada animal e sua andadura enquanto se posicionam.
Procure ter uma impressão global dos cães como um grupo ao início. A maioria das pessoas pode pensar que isto inclui só uma impressão deles parados em fila. Eu discordo e acredito em buscar essa impressão também com eles em movimento.
No começo de cada classe, com os cães já parados, busco quatro características críticas na linha de cães:
Forma ou contorno – para determinar quais cães se ajustam à imagem da raça como o padrão indica. A distância, observo as curvas, profundidade de tórax, comprimento de pescoço, corpo e pernas que se combinam para produzir um contorno ou silhueta de um bom exemplar da raça.
Presença - Não confunda presença com qualidade, mas um cão com presença chama atenção imediatamente. Parece que ele sabe que é o melhor e espera que você concorde. Se você não prestar atenção nisso quando no exame individual, separando presença de qualidade, correrá grandes riscos de errar. Presença de pista é uma grande qualidade num cão de exposição, mas não deve se sobrepor a faltas sérias que podem aparecer num exame mais detalhado.
Qualidade – Um juiz experiente, me disse que não poderia definir qualidade - ela fala por si mesma. E é bem isso. Cães que possuem qualidade ficam longe à frente dos outros, como se fossem fundidos num molde especial e diferente. Eu busco essa qualidade e procuro recompensa-la no meu julgamento.
Equilíbrio – A falta de equilíbrio diminui grandemente a forma, a presença, e a qualidade. Todas as partes de um bom cão de raça devem se ajustar harmonicamente. Curvas com comprimento, amplitude com profundidade, substância com forma, e devem estar sempre em harmonia. Cães desequilibrados se sobressaem negativamente no grupo. Alguns exemplos de desequilíbrio incluem, dependendo do padrão de cada raça: um corpo longo em pernas curtas; um ombro muito íngreme e mal angulado; um pescoço curto fixo num corpo longo; pernas longas e tórax raso. Cuidado: um cão pode possuir equilíbrio e ter falta de tipo correto.
Depois que eu tiver a avaliação inicial do grupo de cães parados em linha, peço aos seus handlers que os movimentem em círculo ao redor do ringue apenas uma vez. Neste momento não avalio movimentação. Isso virá depois quando examina-los individualmente. Neste momento busco pelas mesmas características anteriormente mencionadas: forma, presença, qualidade, e equilíbrio, mas agora em movimento. Esta etapa freqüentemente me surpreende. Os cães que pareceram melhores parados podem não se manter dessa forma em movimento. A forma perfeita do cão parado pode, em movimento, transformar-se em um desastre como se muitas partes de diferentes cães estivessem todas juntas presas em um só animal. O inverso também acontece, ainda que mais raramente, e um cão que não impressionou parado pode crescer muito em movimento.

Muitos juízes omitem este passo crítico de avaliar forma, presença, qualidade, e equilíbrio em movimentação. A experiência me mostrou que cães parados podem mudar radicalmente em movimento. Isto não acontece simplesmente porque o movimento descobre falhas estruturais mas além disso porque expõe faltas no tipo. É difícil de escolher entre o cão que possui forma, qualidade, presença, e equilíbrio quando parado, mas os perde em movimento; e um que os possuem em movimento mas não quando parado. Aí é quando anos de experiência ajudam muito ao juiz. Os melhores cães, claro, se superam em ambos.

Terminada a avaliação inicial, inicio o exame individual. O exame de um cão pode e deve ser realizado em um período de tempo relativamente pequeno se o juiz economizar tempo de movimentação. Um minuto e meio a dois minutos e meio são suficientes para isso. Tenho notícias de juizes que prejudicaram o brilho de exposições por estender seus julgamentos muito alem do razoável. Eu aprendi cedo que, o que o juiz não vê nos primeiros 30 segundos de exame de um cão, não verá nunca mais!
A discussão sobre técnicas de julgamento é muito extensa para ser tratada neste artigo e fica para outra ocasião. No entanto, quero destacar que é necessário usar intensamente as mãos para o exame individual, que busca avaliar a substância, estrutura, balanço, condicionamento geral e principalmente os pontos típicos de cada raça. Não há como achar a colocação do ombro, determinar a qualidade do tônus muscular ou a condição geral do cão, além de examinar os testículos nos machos sem o uso adequado do exame manual. Desenvolver uma rotina consistente examinando cães é o melhor modo para assegurar que todo cão receba um exame completo. Isso também economizará algum tempo, esforço físico e dará uma aparência mais “profissional” ao seu julgamento visto de fora do ringue, além de ajuda a organizar seus pensamentos para decidir qual cão é melhor.

Eu e todos os juízes veteranos lhes dirão que se tivéssemos só um procedimento para usar julgando cães, avaliaríamos os cães em movimento visto de lado. A andadura de lado deixa ver o equilíbrio, como as partes se ajustam e toda a estrutura em ação. Claro que não posso limitar meu julgamento a andadura lateral, os cães também devem ser movimentados individualmente em “ida e volta”. Este padrão de movimento em uma linha direta me permite o exame de ambos os conjuntos, o dianteiro e o traseiro em ação. Quando movimentando o cão em “ida e volta” busco um movimento em linha reta. Se ele “torce” o corpo em um ângulo sobre a linha reta de seu movimento ("crabbing" ou andar de caranguejo) isto muitas vezes quer dizer que o quarto dianteiro do cão e o quarto traseiro estão fora de equilíbrio; quer dizer, ele é mais angulado em um quarto do que no outro ou ainda que sua parte de trás é muito curta para o comprimento das pernas. Também observo a evidência de cotovelos soltos ou a tendência de pés para dentro, na frente. Na parte traseira, verifico se há jarretes de vaca ou outros sinais de fraqueza.
Lateralmente, analiso a eficiência dos movimentos. Não deve haver nenhum movimento perdido e o cão deve cobrir terreno facilmente com passos largos e poderosos dependendo de cada raça. Evite cães que têm passos curtos e agitados nas raças maiores, pois cansariam depressa quando em atividade. Igualmente é uma falta na maioria das raças, cães que se movem com um pisar alto ou andadura “hackney”. Estes animais estão desperdiçando movimentos e gastarão mais energia para cobrir a mesma distância que um cão com movimento melhor e mais eficiente.
Certo e errado absolutos não existem.

O padrão de uma raça define uma gama, não apenas um ponto, num espectro de tipo correto. As pessoas razoáveis podem e discordam sobre o significado do padrão. Mesmo se eles concordarem nos pontos gerais, discutem sobre como aplicar o padrão a determinados cães. Algumas de minhas melhores recordações incluem discussões acaloradas com criadores e outros juizes, sobre o significado dos vários pontos do padrão que tipifica uma raça. Essas discussões aumentaram muito a minha compreensão do verdadeiro tipo de cada raça.
Eu procuro manter minha mente aberta. Julgar requer encontrar os cães que se aproximam de um ideal. Nenhum cão é perfeito, então, julgar, sempre significa ter que chegar a um acordo entre a realidade e um ideal. No fim, eu terei que escolher os melhores cães da pista, não o exemplar perfeito que só existe na minha mente. Os cães em carne e osso que chegam mais perto da imagem do meu conceito de cão perfeito, merecem os prêmios.

Este texto não representa nada mais do que uma compilação das minhas reflexões sobre como formular uma das várias aproximações aceitáveis para a subjetiva atividade de julgar cães. Alguns juízes experientes podem desejar alterar este conceito para revesti-lo com seu estilo e procedimento pessoal. Isso é absolutamente normal já que cada um tem sua própria personalidade. Mas, modestamente, acho que os juízes iniciantes entretanto, poderiam encontrar aqui alguma utilidade como um começo de método, que eles poderão modificar na medida em que sua experiência se desenvolve. De qualquer forma, cada juiz deve seguir suas idéias gerais para encontrar os cães que melhor representem o padrão de sua raça. O maior e mais grave erro que um juiz pode cometer numa exposição não é o de equivocar-se numa classificação ou interpretação de padrão, mas sim o de não dar sua sincera e independente opinião sobre cada cão.



Ricardo Torres Simões
Juiz All-Rounder da FCI
Juiz # 7273 do AKC