segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Castração de pets, agora com Victoria Stilwell

>> Reportagem: Cíntia Marcucci/Folha Imagem
 
"Se você fala em castrar o meu cão, fala em me castrar também, pois é assim que eu me sinto."
Foi com essa frase - só que com termos um pouco mais diretos - que o dono de um buldogue mal-educado e, diga-se, tarado, se justificou contra a castração do animal em um dos episódios do reality show inglês "Ou Eu ou o Cachorro", transmitido no Brasil pelo canal GNT (terça-feira, 21h30).

O programa, em que os cães e seus donos são reeducados, é apresentado pela adestradora Victoria Stilwell, que, em entrevista à Revista, defende a medida radical.

Falar em castração de animais incomoda, sobretudo, os homens. "Parece que é comigo. Eu não acho justo, ele pode conhecer alguém, ter um filhotinho um dia. É maltratar o animal. Não é o curso natural das coisas", acha o produtor Rogério Furtado, 47, dono de Toy, um akita de sete anos que nunca cruzou ou teve uma namorada.

Quem não compartilha da idéia é sua mulher, a paisagista Natália Ferreira, 40. "Acho mais saudável que ele seja castrado", diz ela. "Ele não vai cruzar mesmo." Ela é categórica quanto à vida reprodutiva do pet e não imagina uma ninhada de akitas pela casa.


Demarcar território
A discordância entre Natália e Rogério é mais corriqueira do que se imagina. "É muito comum ver homens que não querem castrar seus cães. As mulheres são bem mais tranqüilas com a questão", diz o adestrador Alexandre Rossi. O especialista explica que um cão castrado é mais fácil de adestrar. "A personalidade e as características do animal não mudam, mas ele acaba seguindo ordens sem tantos desvios de atenção."

Segundo o adestrador, é por isso que todos os cães-guia para cegos são castrados. Caso contrário, sairiam correndo atrás de uma fêmea no cio ou parariam a cada poste para demarcar território.

Os argumentos não convencem o contador Sérgio Scarpiones, 43, que sofreu ao ter de castrar dois de seus cinco cães por questões de saúde. Mas não admite a possibilidade de castrar Urso, um rottweiller de 12 anos que atua como cão de guarda. "A castração deixa o cão apático, abobalhado. Muda demais, deixa o animal até um pouco afeminado", afirma. "É uma sacanagem, pois ele não pode opinar."

A rottweiller do casal, Bebel, 5, não vai escapar da cirurgia, mesmo contra a vontade de Sérgio, já que sofre de gravidez psicológica com muita freqüência. "Todo cio dela é complicado", explica a mulher de Sérgio, a advogada Naila Khuri, 38, ao lembrar que precisa deixar a cadela presa, enquanto os machos uivam. "Seria mais fácil se fossem todos castrados."

Naila não pouparia nem Urso. "Ele já desenvolveu o instinto de guarda. Não mudaria nada se fosse castrado", opina Naila, em oposição ao marido.

Segundo a veterinária e professora da Faculdade de Medicina Veterinária da USP, Clair Motos de Oliveira, Naila tem razão: "O cão castrado não perde a função de guarda se ele já for treinado. Ao contrário das fêmeas, os machos da espécie canina têm instinto desenvolvido antes do nascimento".

Bicho inteiro
Na casa do psicólogo Cristiano Liveraro, 34, e de sua mulher, a empresária Luciana, 27, vivem uma cadela dogo argentina e oito gatos, entre fêmeas e machos. Só um gatinho macho não é castrado.

"Antes do Vitão aparecer, outros gatos da rua invadiam a nossa casa e faziam uma zona porque ninguém defendia o território. Isso parou desde que ele surgiu e é por isso que eu não acho uma vantagem castrá-lo", conta Liveraro, que não é contra a castração em si, mas vê as vantagens de ter um bicho "inteiro" (no jargão veterinário) em casa.

Já Luciana odeia ver seu pet voltando para casa todo estropiado depois de brigar com outros gatos pela mesma fêmea no cio. "A grande diferença com que homens e mulheres enxergam a questão é que nós pensamos com o instinto materno, de querer protegê-los de brigas e doenças, enquanto os homens talvez façam uma transferência de seu instinto de continuidade da espécie."

Prós
1. Diminui os riscos de câncer de próstata, mamas e piometra (infecção uterina)
2. Reduz o risco de doenças sexualmente transmissíveis (já que a atividade sexual se torna inexistente)
3. Deve ser feita em cães jovens para ser eficaz na prevenção de doenças, especialmente em fêmeas
4. É uma medida de controle populacional de cães e gatos (uma alternativa é a vasectomia em machos, mas que não tem os benefícios de prevenção de doenças)
5. Restringe brigas com outros animais

Contras
1. Pode fazer o animal engordar, dependendo de sua tendência natural, se o alimento é oferecido livremente
2. Não é método de adestramento e, sozinho, não serve para acalmar o cão ou torná-lo mais obediente
3. Animais castrados podem continuar subindo na perna das pessoas, para chamar atenção
4. Se for só por conveniência, não é aconselhável para cães idosos
5. É raro, mas pode gerar incontinência urinária

Fontes: Clair Oliveira (USP), Alexandre Rossi (Cão Cidadão) e Victoria Stilwell


Entrevista Victoria Stilwell

"Não ponha seu ego nisso"
Victoria Stilwell, a "supernanny" de cães endiabrados, é partidária da castração tanto para machos quanto para fêmeas. Uma das mais famosas adestradoras do Reino Unido, ela diz que só castrar não torna o bicho um poço de obediência. Ela aconselha ainda os homens a pensar sob o ponto de vista do animal e a rever sua posição sobre castração.

Revista - Indicam a castração para diminuir a agressividade dos cães. Funciona?
Victoria - A castração sozinha não resolve e, dependendo do caso, pode até piorar. Os hormônios, como a testosterona, fazem um cachorro se sentir mais confiante. Então, remover a testosterona pode torná-lo inseguro e agressivo. Por isso, é necessária também a terapia comportamental. Castração não é procedimento de adestramento. Isso deve ficar bem claro.

Revista - Um cão castrado é mais fácil de adestrar?
Victoria - O animal fica menos competitivo, com menos recursos para brigar com outros bichos.

Revista - Muitos dizem que não castram seus animais, pois eles precisam ter uma experiência sexual antes. Que acha disso?
Victoria - Não. O ideal é castrar por volta dos seis meses. Eles não precisam provar nada antes. Pense sob o ponto de vista humano: se você tivesse uma experiência sexual, e só uma, e não pudesse ter mais depois, isso não ia te enlouquecer?

Revista - Você sente que os homens têm mais resistência em castrar um cão?
Victoria - Completamente. É como se eles fizessem uma espécie de transferência para os seus próprios testículos. Imaginam que cães machos terão sua sexualidade retirada. Mas aí está exatamente o ponto pelo qual eu recomendo a castração. É uma solução para os problemas populacionais de cães abandonados. Indiretamente, castrar salva a vida desses animais que seriam abandonados.

Revista - O que você diria para convencê-los?
Victoria - Não pense em termos humanos, não ponha seu ego nisso. Pense que isso vai tornar a vida de seu cão mais longa e melhor, diminuindo riscos de doenças muito sérias em cães, como o câncer.

Fonte: Publicado pela revista Folha em 30/03/2008






"Se você fala em castrar o meu cão, fala em me castrar também, pois é assim que eu me sinto."

Einstein dizia que é mais fácil quebrar um átomo que um preconceito!