terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Por que cães de companhia não devem reproduzir?

Há alguns dias, um senhor encontrou em contato telefônico comigo porque sua frenchie estava no cio e ele gostaria de acasalá-la com um dos meus cães.

Agradeci o interesse, mas declinei seu insistente pedido.  Disse-lhe que não vendo cobertura dos meus cães e acresci que meus cães destinados à reprodução vão exclusivamente para criadores da minha estrita confiança, que compartilham das mesmas filosofias de criação.
O senhor continuou obstinado em seu propósito de acasalar sua cadela com um dos meus cães e me disse que:
- possuia uma linda cadela, filha de pais campeões, proveniente do canil XXXX;
- eu deveria ser mais flexível, pois desta maneira ele teria que viajar para outro estado para conseguir acasalá-la;
- que se ela fosse acasalada com os cães desta cidade, EU estaria contribuindo para a degeneração da raça;
- que meus cães são muito bonitos para serem "pouco aproveitados";
- que eu sou uma criadora séria e por isso ele estava entrando em contato comigo. (!)

 (...)

Este senhor não estava interessado em entender porque não permito o acasalamento dos meus cães para terceiros, apenas queria acasalar sua cadela para presentear sua família com filhotes - segundo ele mesmo relatou - e pronto!


Muitas pessoas não entendem as razões que movem a rejeição de muitos criadores, e a minha, por proprietários de cães reproduzindo-os domesticamente. Já escutei o termo reserva de mercado com relação à essa atitude.
Pode-se argumentar que grande parte dos criadores deram início ao seu hobby acasalando o seu cãozinho de estimação, mas isso não quer dizer que este seja o caminho certo a seguir.
A motivação contra a reprodução doméstica de cães invoca à proteção do indivíduo, à proteção da raça e à responsabilidade social.

Quem adquire um adorável cãozinho muitas vezes não tem idéia que planejar um acasalamento envolve:
  • Tempo necessário para fazer os exames diagnósticos dos cães antes que ingressem na vida reprodutiva (mesmo lindos, será que vale a pena reproduzí-los?);
  • Conhecimento dos ancestrais das linhas de sangue que serão acasaladas, porque:
          - queremos cães saudáveis, portanto conhecer quais são as questões de saúde que costumam incorrer com mais frequência naqueles animais é essencial;
         - queremos cães bonitos, portanto conhecer as característivas mais marcantes (boas e ruins), que devem ser equilibradas, é muito importante;
  • Conhecimento do padrão da raça, afinal, tipicidade física e comportamental é fundamental;
  • Bom senso para não acasalar um cão quando não vale a pena.

Quando se é cuidadoso nos acasalamentos, as chances dos cães nascerem com problemas  de saúde crônicos e/ou fatais é menor.  Cardiopatias, discrasias sanguíneas, questões alérgicas, endocrinopatias , entre outras, podem ser controladas em um programa reprodutivo criterioso.
Então, por que permitir o nascimento de cães "não-controlados"?
Isso é o que eu chamo de proteger o indivíduo.

Pessoas que reproduzem seus cães domesticamente perpetuam o mal exemplo a quem adquire seus filhotes.  Os novos proprietários poderão reproduzir estes novos cãeszinhos, que, por conseguinte, reproduzirão seu netos, bisnetos, tataranetos...
Onde está o controle destes cães? Saúde? Tipicidade? Morfologia? Temperamento? Agora, temos um amontoados de cães, provavelmente atípicos e com algum grau, maior ou menor, de problemas de saúde.
Cuidar para que isso não aconteça é o que eu chamo de proteger a raça.

Proprietários que acasalam seus cães não se preocupam em selecionar os lares para seus filhotes - mesmo porque, o proprietário ideal para seus filhotes não procurará por eles... - e não se preocupam em castrar seus filhotes. Será que o proprietário que acasalou sua cadela reassumirá algum filhote, caso o mesmo perca seu lar? Ou será que, no desespero, ele se verá livre do cão com o primeiro que aparecer, porque não aguenta mais aquele  cachorro adulto que reapareceu do limbo, fazendo xixi pela casa toda? Lá se vai mais um aumentar o número de cães de raça abandonados...
Preocupar-se com essas questões é o que eu chamo de responsabilidade social.

Proprietários de cães iludem-se com o lado bom do acasalamento de suas cadelas (ou cães) e só  imaginam o buquê de adoráveis filhotes que está por vir. Mas, não se preparam para vivenciar o que está descrito aqui ou aqui.

Por essas razões - e acredito que sejam suficientes - não apoio a reprodução dos cães de companhia e não compactuo com pessoas que são adeptas a ela.
Não importa quão linda seja a cadela ou quanto o proprietário esteja disposto a pagar pela cobertura  do cão. A beleza da cadela e o dinheiro do proprietário não comprarão a saúde dos indivíduos que nascerão, não assegurarão a proteção da raça a longo prazo e nunca condizerão com o meu conceito de responsabilidade social.

Por isso, se você for o proprietário de um cãozinho e ainda não estiver convencido que reproduzí-lo é uma enorme insensatez, agradeço a gentileza de pedir orientações ao criador de seu cão, caso deseje acasalá-lo. 

Por favor não me peçam orientações neste sentido, é totalmente contra os meus princípios a reprodução de cães de companhia.

Obrigada.

Camilli


P.S.: Valeu, turma do CQC, pelo TOP FIVE desta semana! Eles também não curtiram a Ana Maria Braga difundindo a reprodução doméstica de cães em rede nacional.




Caso você queira enviar um recadinho para a própria Ana Maria Braga, clique aqui.