quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Do que os cachorros gostam?

Texto de Bruna Braccini, bióloga e comportamentalista animal, escrito especialmente para o nosso blog.  Caso você esteja precisando de orientação de qualidade na educação do seu frenchie, nós indicamos o trabalho dessa comportamentalista positiva sem reservas - ela oferece consultorias, presencialmente (em BH-MG) e à distância (online). 
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Vamos começar este texto com a seguinte perguntar: você sabe do que seu cachorro gosta?

Sou tutora de duas cachorras jovens, Stella e Corona. Ambas são vira-latas e moram comigo, em um apartamento, em Belo Horizonte. Elas são super companheiras, se dão muito bem e nunca brigam. Praticamente, todos os finais de semana, frequentam um sítio em uma zona rural, com uma área verde, grande o suficiente para serem “cachorros de verdade”. Quando digo “cachorros de verdade”, digo: cavar e rolar na terra ou na lama, correr livre e sem limites, caçar calangos e passarinhos, roer galhos e comer coquinhos, tomar sol ou chuva à vontade, conviver com outros cães, dentro ou fora do sítio.

Há mais ou menos um mês, me propus a observar o que cada uma realmente gosta. Você já parou para observar seu cachorro? Observar quais os reais gostos, quais os limites? O resultado da minha experiência, foi ao seguinte:

A Stella ama roer! É a atividade que parece deixá-la mais feliz. No sítio, sempre que tem oportunidade, está roendo algum galho, folha, comendo um coquinho, mastigando, mastigando e mastigando. Ela come de tudo! Preciso tomar cuidado para manter o peso, só dar alimentos permitidos para cães e ficar atenta nos passeios, já que ela não tem limites. A segunda coisa que ela mais ama: água! É só ligar a mangueira que a diversão é garantida. Não é muito sociável com outros cães, apenas com a Corona. Os demais, ela tolera, desde que não invadam o espaço imaginário dela. Sabe muito bem sinalizar quando isso acontece, ponto positivo. Aliás, sinalizar é com ela mesma! Qualquer cachorro ou pessoa estranha que se aproxime dos limites do sítio é motivo para que dê o aviso. Late em disparada, mas logo que chamamos, atende e volta para perto. No apartamento, sabe as regras, latidos não são muito bem-vindos, se começa, logo para, sem muita insistência. Ser humano é a terceira coisa que mais ama! Gosta mesmo, não perde a oportunidade de pedir um carinho e tentar umas lambidas. Às vezes, dá trabalho, falta delicadeza na aproximação, mas a gente insiste e ensina, com muita persistência. Apesar de amar pessoas, é bastante independente, não liga para ficar sozinha, gosta de ficar perto, mas não gosta de muito chamego, logo sinaliza, quando passamos dos limites dela. E a gente sempre respeita! 

Corona ama ser livre! Ela se sente plena no sítio, pelo simples fato de poder correr à vontade, sem limites e sem hora para parar. Corre, corre e corre! Enquanto todos os outros cães estão deitados, descansando, Corona corre. Não cansa nunca! É bastante sociável, gosta muito de outros cães, de brincar e interagir. É a única que consegue fazer o Elvis, o maior e mais velho cachorro do sítio, correr e brincar. Quando percebe que está correndo sozinha, costuma parar na frente dos outros cães e chorar, chamando para brincar. Chorar é algo que faz parte da rotina. Chora por ansiedade, sofre! Já melhorou muito, mas é um caminho que vamos percorrer por toda a vida dela. Não gosta de ficar sozinha, nunca! Suspeitamos de algum trauma, mas nada certo. Apesar de preferir cães, gosta de pessoas e é delicada nas interações, quase como um gato, sem qualquer exagero. Os passeios de guia, costumam ser uma surpresa, precisamos sempre estar atentos ao nível de ansiedade em que ela está, para que seja agradável. Acredito que por gostar de ser livre e sociável demais, não gosta muito da ideia de estar presa à guia, e às vezes, tem episódios de reatividade. Treinamos com ela há muito tempo, todos os dias, sempre respeitando os limites dela, que variam de acordo com o dia.


Stella Artois (moreninha) e Corona (branquelinha)


Essas são Stella e Corona, descritas brevemente. E qual o motivo para eu escrever tudo isso? É simples! Só quando você conhece, realmente, seu cachorro, consegue dar uma boa vida para ele. Não existe regra do que é bom ou ruim, legal ou chato para um cão. Os cães são seres individuais, assim como as pessoas, cada um tem gostos, manias e limites. Se você desconhece quais são, não consegue chegar em um equilíbrio na rotina. Na minha casa, por exemplo, eu sei de duas coisas básicas: Stella precisa ter o que roer e mastigar, principalmente dentro de casa, para que não precise dar seu jeito com o que não deve. Corona, por sua vez, precisa de passeios livre, semanais, na praça cercada ou no sítio, para que fique tranquila, consiga passear numa boa e ficar sozinha nos momentos em que é necessário. De nada adiantaria eu não proporcionar esses passeios para ela e achar que ficaria bem com dois ou três enriquecimentos ambientais de roer, na minha ausência. Certamente, iria chorar em desespero. Da mesma forma que não adianta eu querer abraçar e apertar a Stella, quando eu tiver vontade, ela simplesmente não gosta e eu preciso respeitar.

Sei que a rotina é corrida, que a vida nem sempre é fácil, que parar por um tempo, não é para qualquer um. Mas proponho que você pare! Pare e observe seu cachorro como um ser único, que tem preferências. Talvez você perceba que nunca fez isso! Não tem problema, nunca é tarde para melhorar. Tenho certeza de que quando você conseguir descrever do que seu cachorro gosta e se propuser a adaptar a rotina dele, de acordo com isso, a vida de toda a família vai melhorar.


Bruna Araújo Braccini
Comportamentalista e Bióloga