quarta-feira, 14 de março de 2018

Dor produzindo fobia a sons, em cães!

Ana Luisa Lopes, comportamentalista canina e estudante de medicina veterinária, acabou de publicar um estudo pela Frontiers, na Suíça, em associação com a Universidade de Lincoln, da Inglaterra. Nesse estudo, ela descreve a associação entre fobias a barulhos e dor crônica, observando que essas fobias foram bem manejadas com a utilização de analgésicos.

Você pode ler o artigo original clicando aqui: https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fvets.2018.00017/full

Neste post, escrito pela própria Ana Luíza Lopes, especialmente para o "Seu Buldogue Francês", muito gentilmente, ela explica a evolução do seu trabalho e as hipóteses levantadas com a sua sua pesquisa.


Ana Luiza Lopes


O cão X, chegou até a Universidade de Lincoln com histórico de medo exacerbado relacionado a barulhos. E como barulho, no caso deste cão, podemos citar até uma colher batendo em uma tigela.... Sim!!! Esta fobia começou com fogos de artifício, trovões e, com o passar do tempo, este cão teve seu medo aumentado e passou a generalizar a todo e qualquer tipo de barulho com o medo que sentia. 

E aí surgiu a dúvida.... Qual era o real problema? O que estava fazendo este cão ter uma generalização tão grande a sons, como por exemplo uma colher batendo em uma tigela? 

Após a consulta comportamental, foram solicitados exames extras – sangue e raio-x – no cão, para ver se aquela alteração era de algum modo relacionada à saúde do animal. Os exames apresentaram resultados normais e então os médicos-veterinários resolveram testar um medicamento para a dor naquele animal... e funcionou! 

E é aí que eu, Ana, entro na história. Eles queriam que eu coletasse os dados da hipótese e escrevesse o artigo. A hipótese era de que este cão estava de alguma forma sentindo dores. Em cães, não existe nenhum estudo prévio ou artigo publicado sobre este tema. Nos seres humanos, existe uma relação entre dor e fobia/medo de sons já comprovada!

Comecei então a coletar dados de outros 20 cães: 10 cães que tinham fobia de sons e tinham dor (chamados de “casos clínicos”) e 10 cães que tinham fobia/medo de sons e não apresentavam dor (chamados de “casos controle”). Todos estes cães passaram por uma consulta com médicos-veterinários especializados em comportamento e comportamentalistas da Universidade de Lincoln  na Inglaterra, onde obtiveram acesso ao histórico médico de toda a vida de cada cão e a vídeos das alterações notadas para serem analisados. Durante as consultas, a postura, o andar dos cães e qualquer outra alteração foi observada bem de perto e, quando necessário, os veterinários fizeram exame físico. Em caso de dúvida ou percepção de alguma alteração músculo esqueletal, os médicos- veterinários de Lincoln pediam aos médicos-veterinários dos cães que exames fossem feitos para melhor investigação.

Vou escrever aqui alguns dos achados da nossa pesquisa que, no caso, são de alta relevância, não somente para quem trabalha com cães, mas também para tutores. 

Os tutores tiveram que responder a um questionário sobre os cães antes da consulta comportamental e, um dos nossos primeiros achados, foi que a idade onde os casos clínicos apresentaram início da sensibilidade a sons, foi em média 4 anos depois do que em cães do caso controle. 

Existem doenças que também podem estar associadas com essa alteração comportamental como, por exemplo, disfunção cognitiva, alterações gastrointestinais e também problemas de tireóide – o que não foi encontrado em nenhum dos cães que participaram do estudo.

Os comportamentos mais comuns, observados nestes cães, foram “balançar, tremer e esconder”, de acordo com relatos dos tutores. Mas comportamentos como arranhar as portas, cavar o chão, respiração ofegante, ficar andando sem conseguir se acalmar, uivar, não querer passear, esconder em sua caminha e correr para longe de barulho, também podem ser considerados.

As alterações musculoesqueletais (no "casos clínicos") foram confirmadas através de vários procedimentos, dentre eles: exame físico realizado na clínica da Universidade de Lincoln com demonstração de dor, realização de radiografia em 8 cães e ressonância magnética em 1 cão. Os problemas identificados foram displasia no quadril (5 cães), doença articular degenerativa dos membros (4 cães) e espondilose nas vértebras L2 e L3 (1 cão). Em 6 cães, os tutores comentaram que pareciam sentir dor e/ou que a dor piorava após exercícios físicos.

Após a consulta comportamental, todos os cães receberam um plano de modificação comportamental, que incluía estratégias de manejo, contra condicionamento e/ou dessensibilização a alguns barulhos. Intervenção psicofarmacológica foi recomendada em 8 cães dos “casos clínicos” e em todos os cães dos “casos controle”. Todos os cães dos “casos clínicos” receberam analgesia e sugestões de manejo para diminuição da dor.

Todos os casos foram reportados como tendo melhorado o comportamento após o tratamento para a dor, exceto um cão com displasia no quadril, que demonstrava sinais de sensibilidade a sons desde os 5 meses de idade e seu tutor escolheu por não utilizar analgesia. Oito cães, nos “casos clínicos”, e sete, nos “casos controle”, tiveram a alteração comportamental considerada resolvida de acordo com a satisfação dos donos.

Concluiu-se, então, que a idade média do início desta alteração comportamental não está relacionada à baixa habituação a sons destes cães quando filhotes e que outros fatores devem ser considerados quando este comportamento for notado.

Médicos-veterinários devem garantir que cães com problemas comportamentais, especialmente esses, com padrões incomuns, como data de início de sensibilidade a sons, recebam, durante a examinação física, um foco particular em possíveis problemas ortopédicos para detectar qualquer foco de dor.

Cães que tiveram dor e sensibilidade a sons apresentaram uma generalização associada a ambientes em que frequentavam, apresentando sinais de medo e evitação. Observamos também que esses cães tendem a evitar outros cães. Estes dados foram achados nos casos clínicos, porém, não apareceram nos casos controle.

Entenderam? Hahaha, calma, que lá vem a nossa hipótese!!

Nossa hipótese sugere que barulhos, quando escutados, podem resultar em uma resposta normal de susto, o que causa tensão no músculo e gera, assim, dor nestes cães que apresentam algum problema músculo esqueletal.

Vale a pena lembrar que a dor crônica também pode causar outras alterações comportamentais, tais como, diminuição das brincadeiras e/ou aumento de comportamentos agressivos, com outros cães. Também podem usar comportamentos agressivos para terminar uma relação que está sendo dolorosa e/ou contato em que buscam prevenir uma interação vista como dolorosa.

Gostaram? Espero que sim! 
Qualquer dúvida, sintam-se à vontade para me contatar! Vou deixar aqui meu e-mail e página do instagram para vocês!

Um abraço,

Ana Luiza Lopes