quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

A dieta interfere no comportamento dos cães

Quando nossos cães (doze cachorros, de diferentes idades) passaram a adotar uma alimentação natural crua e com ossos*, percebemos melhoras notáveis na saúde deles, em vários e diferentes aspectos: a queda de pelos diminui; as infecções recorrentes de pele e de ouvido desapareceram; o muco nas fezes, as diarreias e as giardíases de repetição pararam de acontecer; o odor forte da urina e das fezes diminui; a disposição para comer aumentou e, surpreendentemente, os cães tornaram-se notavelmente mais dispostos e mais tranquilos.

* A alimentação natural crua e com ossos é uma dieta à base de carnes cruas, ossos carnudos crus (meaty bones), vegetais cozidos ou liquidificados e gorduras de boa qualidade. Essa dieta também é conhecida como BARF – Biologically Appropriate Raw Food ou Comida Crua Biologicamente Apropriada, em tradução livre.

Estudando um pouco mais sobre o comportamento dos cães, constatamos que há vários estímulos capazes de desencadear o estresse nesses animais – tanto o estresse oxidativo, em nível celular, quanto o estresse em nível endócrino. Citamos alguns exemplos de gatilhos do estresse:
  • Exposição a intempéries (frio, calor ou chuva)
  • Ausência e excesso de atividades físicas
  • Sedentarismo
  • Falta ou excesso de atividade mental
  • Fome ou sede em excesso
  • Isolamento social ou tédio
  • Doenças
  • Medo
  • Dieta biologicamente inapropriada




Quando qualquer uma das situações supracitadas ocorre de forma contínua, o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal e o eixo simpático-adrenal dos cães tornam-se permanentemente ativados e esses animais passam a apresentar concentrações constantemente elevadas dos hormônios adrenalina e cortisol no sangue. Esse último, quando em níveis cronicamente altos, promove alterações na bioquímica neurológica e na morfologia neuronal, aumentando o estresse metabólico nos neurônios e interferindo no equilíbrio dos neurotransmissores responsáveis pela atividade normal do cérebro (GABA, dopamina, serotonina, etc.). Como consequência, os cães passam a apresentar comportamento ansioso e hiper-reativo.

A interferência da nutrição nos mecanismos de ativação e de inativação gênica é explicado pela nutrigenômica. O ômega-3, por exemplo, tem função importante na maturação do sistema nervoso central, regulando o metabolismo dos neurotransmissores, a neurogênese e a arborização dendrítica. A carência desse nutriente, em um cérebro em desenvolvimento, determina déficits cognitivos irreversíveis.

Por que a alimentação natural crua com ossos faz o organismo do cão funcionar melhor?

Os cachorros são “primos-irmãos” dos lobos cinzentos, com genética e fisiologia tão idênticas que lhes permitem, inclusive, reproduzirem-se entre si. O cruzamento entre esses animais produz o wolfdog, um indivíduo fértil, capaz de reproduzir-se com outro cão ou outro lobo. Sob a ótica da fisiologia, isso significa que o que funciona bem para o lobo também funciona bem para o cachorro.

Cães são animais que estão no planeta há mais de 10.000 anos e seus ancestrais há milhões de anos. Por todos esses milhares de anos, a fisiologia deles vem sendo esculpida com – e para – uma dieta carnívora. O corpo deles nos mostra isso:
  • Não possuem a enzima amilase na saliva que digere carboidratos;
  • Não possuem rúmen;
  • Apresentam intestinos delgados curtos e inadequados para a digestão de grãos;
  • São extremamente tolerantes a contaminações alimentares. Por exemplo: ingerir fezes é um comportamento totalmente natural e aceitável no universo canino. Cães costumam gostar bastante de degustar excrementos de gatos, de pássaros e de herbívoros, embora sentimos nojo e aversão por essa preferência gastronômica deles!!!


Podemos afirmar que a expressão gênica, nos cães, é influenciada pela sua dieta. Por isso, diante de um ambiente dietético apropriado, o corpo e a mente entram em equilíbrio – sendo que o oposto também é verdadeiro.

Enfim, todo cachorro com problemas comportamentais precisa ter sua alimentação revisada, dada a sua relevância, com o objetivo de eliminar o gatilho alimentar do estresse, da ansiedade e da hiperexcitabilidade neuronal.